O território na Galiza

Baixo este nome juntam-se os ensaios de 9 artistas da Galiza, tratando de mapear a fotografia contemporânea galega.

Partindo de visões particulares bem diferenciadas vai-se criando um discurso unificador que explora os diferentes jeitos de proceder na criação fotográfica atual na Galiza, e que mostra como os e as galegas habitamos a nossa terra, documenta a relação que temos com o território e fala da nossa identidade, que aliás não é uma maneira isolada pois é comum a toda uma cultura da galeguidade que exportamos ao mundo e que deu em se chamar noutros pontos do mundo lusofonia ou brasilidade.

Os conceitos de território e identidade estão muito unidos. Entendendo território como o conceito referido á paisagem intervinda pelo humano, ou á contorna natural humanizada, o que descreve e interpela transversalmente a identidade do povo que o habita. Uma identidade condicionada por um País colonizado pelo alheio, o que marca completamente o jeito de estar no mundo, portanto torna-se visível em tudo quanto os e as galegas fazem, também na arte. Galiza é no fundo uma periferia que poderia ter a ver com o status do Ceará no Brasil.

Debaixo do guarda-chuvas do Território expandido podemos encontrar os ensaios que foram Prêmio Galiza de Fotografia Contemporânea nos últimos anos. Assim Daniel Díaz Trigo debulha uma história própria tirada do seu caminho vital que mistura neste documental-ficção com a história familiar e a historia da sua comarca onde a ditadura franquista foi muito dura conseguindo mudar tudo, até as construções e os modos de vida.

Berto Macei trabalha num circo com um particular ponto de vista e coa gramática própria do Film Noir, onde os contrastes, a decadência e as personagens criam uma confusão para achegar-nos um pequeno território que podemos extrapolar com aquele que habitamos na rutina diária.

Jose Romay toma a gramática visual dos New Topographics americanos para fazer um documental que nos expõe um território bem diferente ao que sai nos postais da zona turística na que ele mora, onde a cor cinza do cimento e o verde do mato não têm limites diferenciadores, e o rural e o industrial se confunde banhado por uma luz californiana que edulcora a dureza das suas fotografias.

Eva Díez, (Prêmio Galiza neste 2015) com uma linguagem muito mais evocadora brinca coas imagens criando cenas oníricas e trata de resgatar a memória a través de vivendas das que só quedam ruinas.

Além dos Prêmios Galiza de Fotografia Contemporânea podemos ver como dialogam outros trabalhos como o da Marta Moreiras que documenta non só o território galego senão outros relacionados com a Galiza desde uma perspectiva da identidade. Se calhar onde se mostra claramente como nos influi o entorno é nas imagens de Damián Ucieda que encena sem vergonhas todo aquilo que nos fala Romay nas suas fotos.

Um trabalho mais íntimo e feito no entorno mais próximo, o da sua casa materna no rural profundo é o do Luís Barreiro, o mesmo rural que fotografa Luís Díaz a través dos palcos de música em decadência que nada nos falam das festas que puderam ter.

Podemos acabarmos na carga conceptual que aporta Carla Andrade na obra que vai construindo no seu vagar errante, que fotografa desde um pensamento filosófico e faz uma constante procura da Galiza nos países que nada têm a ver com o nosso.

 

Fortaleza, dezembro 2015.

Vítor Nieves. Curador