DAVID TRULLO

Homografías

ESTA EXPOSIÇÃO FICOU ADIADA POR CAUSA DO ARRESTO DOMICILIÁRIO AO QUE NOS OBRIGAM PELO CORONAVÍRUS

Galeria Adorna Corações | Porto, Portugal
do 14 de Março a 2 de Maio de 2020
Curador: Vítor Nieves

A desconstrução tornou-se uma das palavras mais usadas no discurso do feminismo e de outros ativismos. A palavra “desconstruir” é cada vez mais usada como sinónimo de remediar, questionar ou criticar. Mas a origem do conceito leva-nos aos anos 70 para os textos do filósofo Jacques Derrida, nos quais tenta reavaliar o conjunto do conhecimento ocidental. Nasceu então como uma ferramenta para tornar visíveis os discursos hegemónicos que historicamente foram deixados nas margens, questionar a centralização do poder e fazer emergir o heterogéneo.

 A homogeneização do discurso implica sempre a invisibilidade de muitas vozes. Assim, a desconstrução visa fazer uma leitura subversiva e não dogmática de textos num sentido amplo: textos literários, mas também cultura como texto, corpo como texto, política como texto. Ou seja, é uma genealogia estruturada dos conceitos que nos habitam. Potenciar a contradição para começar de novo, despir para revelar os processos de formação. Desassociar os conhecimentos e os discursos para ver o que a história escondeu e reprimiu.

Todo o trabalho de David Trullo é enquadrado neste contexto. As suas séries, ainda formalmente diversificadas, respondem a um corpus conceitual com uma clara posição política. Por meio de diferentes estratégias técnicas e visuais cria imagens e objetos que buscam ícones do imaginário coletivo imbricado na cultura ocidental para questionar a pedra basilar da estruturação social com conceitos tão construídos quanto assentados: masculinidade, identidade e género.

O trabalho de Trullo atua como uma incansável máquina de desconstrução. É como um desmantelamento do relógio histórico que revela a maneira pela qual a história foi conscientemente construída, permitindo analisar mecanismos operacionais, heranças passadas e vozes ocultas.

Ajustando as peças do quebra-cabeças apresentadas pelo artista, veremos como, através da apropriação de formas e objetos que rapidamente ligamos a símbolos históricos, propõe uma reflexão iconoclasta. Mas, como Judith Batler aponta em Gender Trouble, desconstruir não é apenas demolir, é entender a artificialidade do género e a masculinidade e fazer uma deslocação nas práticas corporais para quebrar categorias. David Trullo derruba e constrói deslocando conceitos hegemónicos. Questiona e critica os valores patriarcais aprendidos durante o processo de socialização. Poder, força, virilidade, competitividade, paternalismo, papel público … estão no seu trabalho em questionamento para permitir visualizar privilégios masculinos abatendo o binarismo do sexo e revelando a sua antinaturalidade fundamental.

Longe de ser uma retrospectiva, Homografias busca colocar em diálogo várias séries que reforçam essa ideia. Coined (2016 – 2017) é talvez a mais iconoclasta daquelas que apresentamos. O artista usa a representação do poder ao longo da história para desenvolver as peças com os retratos de homens do seu entorno. As fotos de perfil enquadradas em círculos não serviram apenas como demonstração do poder desde que a moeda existe, senão ao longo da história também foram usadas por todos os regimes (democráticos ou não) para perpetuar a hegemonia masculina.

Food of love” (2007) é uma série em que fala de conceitos mais carnais, do consumo e alternância dos corpos, formalmente muito próximo de “Entreguerras“, a série mais jovem das expostas. Juntamente com elas, e reforçando a reflexividade do autor com a história da arte e, neste caso, a da fotografia, encontraremos as imagens de “Metamorphosis” (2011) que fazem parte do livro de artista homónimo.

Vítor Nieves.

Convite da exposição

+info sobre o autor:davidtrullo.com

 

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